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Carta a um Maçom – 30 Anos Depois

(Frater 939)

Tradução: Adriana Alves

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Trinta anos se passaram desde que a “Carta a um Maçom” foi escrita. Com a nova edição deste trabalho de Marcelo Ramos Motta, parece um momento oportuno para uma pausa, um momento, e uma reflexão sobre o estado dos assuntos que essa carta abordou (bem como o estado das coisas que devemos abordar ao reemitirmos esta carta). O nome do Sr. Motta tem sido muito difamado nos últimos anos, principalmente por “discípulos” antigos e desacreditados. No entanto, deve ser compreendido, mesmo por aqueles que entendem e não entendem a(s) posição(ões) que ele assumiu, que o mal-entendido e fracasso por parte deles em obter resultados sob sua orientação não denigre sua virtude como Mestre e professor em todos os casos. O Sr. Motta gostava de dizer que se nós, como discípulos, não pudéssemos obter resultados sob os métodos dele (do Sr. Motta), deveríamos encontrar outro Mestre.

Esse dito não era de forma alguma uma ameaça; era, antes, uma afirmação clara de um fato básico da Iniciação (e, como tal, tinha diversos significados.) Sinto-me justificado em dizer que o Sr. Motta não era um homem fácil de entender. Nem um mestre “fácil” de seguir. A melhor metáfora para o método de ensino do Sr. Motta é dizer que ele colocava um irritante na “casca” de um Aspirante para ver se ele produziria uma pérola.

Isso é bom se a casca é de uma ostra. O problema era que muitos deles eram moluscos. Eu não quero dizer que os moluscos não são úteis (para não mencionar saborosos, eles costumam dar uma boa sopa), mas se é pérolas que você que …. bem…. Esses tipos de situações e os problemas que surgem com eles no Ego do discípulo formam uma classe dos “testes” e de ordálias. Liber AL não promete um tempo fácil. Diz antes: “Ele deve ensinar, mas pode tornar severas as ordálias”.

Não há necessidade de justificar qualquer ação do Magister Templi conhecido no mundo como 216 ou qualquer outro Magister Templi de forma alguma! Tem sido frequentemente apontado que o homem/mulher e o Mestre nem sempre têm a mesma opinião. Cf. Liber CCCXXXIII cap. 56 para um exemplo do “diabrete Crowley”. Eu escrevo isso não tanto para aqueles que foram hipnotizados em acreditar que Marcelo Motta era um bicho-papão louco, mas sim para aqueles que preferem investigar e tomar suas próprias decisões.

Para estes eu digo; leia esta carta, procure e leia qualquer um dos números do Equinox V e leia o comentário não apenas as opiniões editoriais. O Comentário ao Liber AL é o melhor trabalho na segunda metade deste século sobre o assunto. O comentário ao Liber LXV é igual em qualidade. O comentário a respeito dos diários de AC  de 1906 lança muita luz sobre um período obscuro na carreira de AC. O comentário sobre o Dao De Jing é erudito e revelador. Essas obras e muito mais, além disso, servirão de evidência para o brilhantismo do Mestre. A opinião … as palavras duras?… e daí …. e quanto a eles!… as opiniões são fundamentais, todo mundo tem uma.

Agora eu gostaria de seguir em frente: tenho uma ou duas perguntas. Eu gostaria de perguntar aos Thelemitas até onde chegamos nos trinta anos desde que a “Carta a um Maçom” foi escrita? Quão diferentes são as condições agora? Nós, como Thelemitas, fizemos tudo o que poderia ter sido feito para modificar os velhos caminhos? Nós, como Thelemitas, fizemos tudo o que poderíamos ter feito para estabelecer os Direitos do Homem no planeta? Se a resposta à última pergunta é não, então não deveríamos usar esse tempo como um exemplo do que não deve ser repetido? Não deveríamos usar esse tempo como um exemplo de como não proceder? As soluções para os problemas que nós, como Thelemitas, enfrentamos são uma equação dinâmica e não uma definitiva estática.

O Sr. Motta estava, em 1963, como em toda a sua vida, muito preocupado com o destino de seu amado Brasil. Em 1963 o Brasil era governado por uma ditadura militar sob o feitiço da Igreja de Roma (era uma situação muito medieval. Exceto pelo fato de que a Igreja não podia derramar sangue tão liberalmente quanto gostaria, ver capítulo IV do Livro 4 sobre O Sacrifício de Sangue e seu comentário para mais detalhes.)

Medieval, em que a igreja ditou a “moral” e os militares ditaram todo o resto (a moral era sujeira podre e o resto era uma abominação similar.) Você pode chamar isso de governo aristocrático a menos da aristocracia. No lugar de uma aristocracia apenas gananciosa, uma selvagem, que assassinava vampiros, “pais” e “generais”. O Sr. Motta tentou, em “Carta a um Maçom”, influenciar, evocar, se preferir, a organização que, em outra era das trevas, ajudou a quebrar o poder da Igreja de Roma (veja-se  AL III-22 para mais informações sobre este tipo de gesto).

Motta endereçou sua carta a um “maçom de alto Grau” conhecido por ele. Como pode ser visto nos parágrafos iniciais de “Carta a um Maçom”, este maçom de alto Grau estava convencido (ao contrário de seus antepassados espirituais) de que a Igreja de Roma era uma “boa introdução à vida adulta”. Esse tipo de complacência é algo que deve fazer a pele de qualquer Thelemita se arrepiar. Não obstante, Motta tentou lembrar diplomaticamente a esse indivíduo que a origem do sistema de crenças dos “maçons” nasceu no “movimento de reforma”.

Um movimento que ativamente procurou romper com o poder da Igreja de Roma e finalmente conseguiu. Um movimento que foi temido e perseguido pelos enganadores da heresia romana. Por fim, a fraternidade maçônica rompeu a retaguarda da Igreja de Roma e celebrou o fato com obras de arte e música que ainda hoje são estimadas para a cultura ocidental. Exemplos de tais celebrações podem ser encontrados na música de Beethoven e Mozart; em pinturas de Goya e Blake. Essa vitória também foi celebrada na ciência por Bacon e Newton, em filosofia por Hegel e Berkeley e em cartas de nomes como Balzac e DeSade.

Mas isso foi naquela época… Até que ponto chegamos nesses últimos trinta anos? Nossa política ainda é controlada pelos remanescentes em decomposição do Cristismo. Nossos códigos de interação social não são mais do que pantomimas do vitorianismo pintadas de forma grosseira (ou, pior ainda, são meras recriações da TV diurna). Nossa época se hipnotizou com a tecnologia para que não tenha que suportar a dor da percepção de que seu tecido moral deve mudar. Quão longe chegamos? Não muito longe e o mais sagrado dos textos nos ordena com estas palavras: “Mas excede! excede! Esforça-te sempre por mais!” Nós devemos sempre nos fortalecer; nosso objetivo não é menor que o da evolução social e moral de acordo com a Lei de Thelema.

Trinta anos não é muito na escala de tempo de um Æon. Mas trinta anos é muito para que tão pouco tenha mudado. O processo de limpeza mencionado em AL II-5 ainda está em andamento de várias maneiras. O veículo para a mudança social demorou a se materializar. “Thelemitas” deram muita importância às vestes roxas da vida e não levaram suficientemente a sério o manto carmesim da guerra. Estes caíram na armadilha contada em AL I-52. Ainda assim é dito: “Basta de Porque! Seja ele danado para um cão! Mas vós, ó meu povo, levantai-vos & acordai!”

Não fizemos o suficiente nem chegamos longe o suficiente nesses trinta anos. Temos um campo difícil à frente e muitos quilômetros a percorrer antes de dormirmos. Sempre que a liberdade é negada, sempre que a tirania surge, devemos agir de acordo com a “Lei da Batalha da Conquista:”. Por quê?Pois os escravizadores e os tiranos que se lançam sobre eles hoje… amanhã se lançarão sobre você. O que podemos fazer? Nada se não começarmos! Como podemos fazer isso?

“Escolhei uma ilha! Fortifica-a!”

 

Amor é a lei, amor sob vontade.

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